Circuito de filmes de arte encolhe no Brasil

TEXTO ORIGINAL RETIRADO DE Valor Econômico

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No último fim de semana, durante o Show de Inverno, encontro de executivos do mercado cinematográfico realizado em Campos do Jordão (SP), Jean Thomas Bernardini, figura-chave do cinema de arte no Brasil, não sabia se ria ou se chorava. Os motivos para rir ele trouxe a público ao anunciar um feito e tanto: sua empresa, a Imovision, tem os direitos de distribuição de 13 filmes que, a partir da semana que vem, serão exibidos na competição e na mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes. Isso foi possível porque vários dos títulos – de diretores como Michael Haneke, Abbas Kiarostami e Alain Resnais – ele comprou ainda no roteiro. Seu faro deixou os presentes espantados.

Mas o empresário andava também queixoso. Inconformado com as dificuldades que enfrentara para conseguir telas em 3D para o documentário “Pina”, de Wim Wenders, Bernardini faz um alerta: o circuito de arte do Brasil está encolhendo. “Temos cada vez menos espaço”, diz. “Tenho todos esses filmes de Cannes nas mãos e, apesar de ter motivos para comemorar, também fico preocupado. Já sei o que vou passar para lançar alguns deles. ‘Pina’ foi massacrado pelo circuito.”

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Walter Benjamin e Angelus Novus

TESE IX

“Minha asa está pronta para o voo
De bom grado voltaria atrás
Pois permanecesse eu também tempo vivo
Teria pouca sorte.”

Gerhard Scholem,
Salut de l’ange
[Saudação do Anjo].

Existe um quadro de Klee intitulado “Angelus Novus”. Nele está representado um anjo, que parece estar a ponto de afastar-se de algo em que crava o seu olhar. Seus olhos estão arregalados, sua boca está aberta e suas asas estão estiradas. O anjo da história tem de parecer assim. Ele tem seu rosto voltado para o passado. Onde uma cadeia de eventos aparece diante de nós, ele enxerga uma única catástrofe, que sem cessar amontoa escombros sobre escombros e os arremessa a seus pés. Ele bem que gostaria de demorar-se, de despertar os mortos e juntar os destroços. Mas do paraíso sopra uma tempestade que se emaranhou em suas asas e é tão forte que o anjo não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, para o qual dá as costas, enquanto o amontoado de escombros diante dele cresce até o céu.

O que nós chamamos de progresso é essa tempestade.

Walter Benjamin – Sobre o Conceito da História