Artigo: A não subjetividade contemporânea pt 1


A não subjetividade contemporânea
Uriel Nascimento – UniRio

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Parece-me existir a ideia de que, num dado momento, o limite, a borra mesmo que separa uma subjetividade existente de uma que não existe pareceu se quebrar, fragmentar-se.  Por subjetividade existente e inexistente entendo aqui o movimento que leva o sujeito mesmo a existir no sentido de suporte do qual tudo pode derivar. Se pensarmos, por exemplo, em Descartes no Discurso, o núcleo irredutível da autorreferência (Eu) alcançado pela dúvida só pode sê-lo porque é limitado. Existe um limite máximo que é a dúvida, sendo qualquer tentativa de duvidar da dúvida taxada com absurda porque duvidar apenas confirma que se duvida de algo.

A dúvida elevada a esse extremo nos convida a observar a seguinte tese: onde há limite há, necessariamente, determinação. Ora, nos parece bem acurado, tendo em vista especialmente que Descartes tenta descobrir aí algo que fundamente, ao mesmo tempo, o conhecimento e a certeza da existência e encontra no Eu esta possibilidade. Se encontra um Eu, é porque suspende todas as outras determinações possíveis de interpelar esse eu. É por isso que chega ao núcleo determinado mínimo, porque exclui quaisquer determinações externas e internas que não a do próprio Eu. Nem mesmo um gênio maligno invalida esta ideia, vez que o gênio pode, de fato, incutir a dúvida, mas o movimento seguinte, o de consciência-de-dúvida é irrefutável, vez que mesmo que seja induzido pelo gênio, algo em mim a ele (ao movimento) corresponde e se encontra. Num certo sentido encontro-me comigo mesmo naquela dúvida. Formulando de outro modo, ainda que incutida pelo gênio, a consciência de dúvida existe de tal modo que aquela dúvida já sempre seja minha.

Pois bem, chegamos ao limite que é necessário existir e o foi mesmo no advento do que se pode chamar o sujeito moderno. Com algumas variações, a determinação sempre foi encontrada: Razão Pura kantiana que não pode tudo conhecer, mas pode se conhecer e se saber conhecendo, sujeito hegeliano que se forma em dialéticas sucessivas no qual o outro é seu limite, consciência que se torna consciência-de-coisa com os fenomenólogos que mantém a consciência, abertura ao mundo e inscrição nesse para o Dasein heideggeriano, o poder que molda e se inscreve na subjetividade em Foucault e, mesmo para Nietzsche, o critério da vontade de potência como resultado de uma luta pulsional implica que eventualmente uma delas se determine, ainda que por pouco tempo. A isso, a esse limite externo e estranho (porque não pura indeterminação), que se internaliza e se torna parte constituinte da subjetividade, chamemos limite constituinte. Constituinte quer dizer aqui que o limite, apesar de conter a subjetividade, está para além dela e lhe é um caráter estranho, quer porque o sujeito dele não tome consciência. Temos como exemplos de não tomada de consciência os homens  que não sabem que fazem história mas à Razão isso é irrelevante em Hegel. De tomada de consciência do limite, temos a constatação de que não se pode fugir das representações em Kant. Nota-se que, ainda assim, o conhecimento do limite não destrói o limite do conhecimento. Há sempre uma certa finitude, um “até onde s e pode ir” que é sempre repetido por todos os filósofos até o advento da psicanálise.

Aproveitemos a ocasião para definirmos imanente em oposição à transcendente. Algo imanente define algo que se encontra na manifestação da própria coisa e não pode ser encontrado fora dela. O Deus, quando pensado quando primeiro motor móvel, faz parte de todo o cosmos e não é encontrado fora dele. Ao contrário, o cosmos é sua manifestação. Já quando pensado como transcendente, está para além do cosmos e é seu criador, mas não participa dele, tendo uma existência externa a este.

Definir estes termos aqui será útil para pensar a subjetividade cuja borra entre existente e inexistente foi quebrada. Ora, se foi quebrada é porque a borra, em algum momento, deixou de ser transcendente – externa – para ser imanente – interna. Podemos escutar alguns ecos da filosofia spinozista neste trecho, mas o que pretendo advogar é algo completamente diferente, já que não é possível afirmar com certeza que caímos na imanência criativa. Caímos no caos porque internalizamos o transcendente e o temos como imanente, ou, em piscanalês, internalizamos um superego que nos leva ao gozo e supomos que é exatamente isso que queremos. Ora, como assim? Um tour pela psicanálise pode nos ajudar quanto a isso.

Antes deste tour, no entanto, é necessário que alertemos quanto a diferença fundamental existente entre um pensamento psicanalítico e o filosófico que privilegie à consciência: o sujeito cartesiano pode ser dito como centralizado, ou seja, como sujeito que tem como uma de suas definições a capacidade de agir de forma consciente e de acordo com a vontade consciente. O sujeito domina a si mesmo e a todas as suas ações porque é consciente de si e capaz de distinguir quando age. O que costumeiramente se diz é que a psicanálise (e o marxismo, e, em alguma medida, Nietzsche)  operou um descentramento do sujeito, mostrando que este não domina o que faz porque está em conflito consigo mesmo. É o sentido da psicopatologia cotidiana, por exemplo. Mostra-se ali como pequenos lapsos de fala e afins possuem, na verdade, a expressão verdadeira do desejo do sujeito.

Outro alerta ainda se faz necessário. Se o pensamento filosófico tradicional até pelo menos a fenomenologia (à exclusão e Nietzsche e, em parte, de Schopenhauer) tratava de verdades como adequações, ou seja, de uma linguagem capaz de expressar o próprio real e, portanto, representativa deste, na psicanálise se falará de sentidos possíveis àqueles enunciados. É assim que um sonho possui múltiplos sentidos: desbrava e demonstra vários caminhos abertos à peça chave da psicanálise, o inconsciente.

Em torno de Édipo

A Viena encontrada por Freud apresentou a este pensador alemão um problema (que o leva a criação da sua tríade clássica[1]): como é possível que uma sociedade criada sob o jugo das leis morais adoeça exatamente por conta dessas leis? Em outras palavras, como é possível que o conflito com os valores da educação seja exatamente a fonte das neuroses que eu encontro? Pois bem, a essa pergunta, Freud respondeu com o já clássico complexo de Édipo. Do que se trata, então, tal complexo?

Freud analisa que, em um dado momento, toda criança passa a desejar sua mãe e manter certa relação de sedução com esta; a criança depois nota que existe algo que a retira de si – seu pai – e passa a nutrir certo ódio, o que gera certa ambivalência com este; por fim, por medo, cede de sua cruzada em direção à mãe e admite a perda daquele objeto. Desse processo todo nascerá o Supereu, chamado por Freud, diversas vezes, de herdeiro de Édipo. O que interessa nessa cruzada toda é que é possível, de alguma forma, que se internalize uma proibição que era externa (o pai) e é exatamente esta internalização que constitui a entrada conflituosa (que nunca cessará de assim o ser) na sociedade e na formação quase definitiva da subjetividade. Quase definitiva porque haverá uma nova onda pulsional no período que chamamos de puberdade ou adolescência que será definitivo embora não determinante se por esta palavra chamarmos o que é puramente fixo e sem capacidade de mudança.

Se é possível que se internalize uma proibição e que esta constitua a subjetividade, temos aí que a subjetividade, para Freud, se constitui precisamente a partir de um “não” fundador. Esse “não” teria por função, ao mesmo tempo, limitar as potencialidades infinitas do sujeito (pulsões), colocando-o no registro clínico da neurose[2], e trazê-lo à cultura como alguém marcado pela falta, o que é, basicamente, outra forma de afirmar a constituição da neurose enquanto estrutura, apenas colocando-a como algo compartilhado pela cultura. Este limite existe para que o sujeito se torne neurótico ou perverso e também, digamo-lo logo, para que não morra nem se desagregue em absoluto. Isto tudo parte da ideia de que, antes de formado, o sujeito tem apenas um conjunto pulsional que não consegue se expressar de forma criativa, uma vez que não há representante psíquico para a pulsão. Não consegue, também, se expressar seu desejo além da tríade pai-mãe-criança porque é precisamente esta tríade que encerrará o desejo da criancinha.

A título de exemplo, pensemos num conjunto de forças para várias direções, sem nada específico como alvo, espécie de força muito poderosa e pura que, lentamente, passa a ser formatada e direcionada. Esse direcionamento (uma mediação) é o que permite o uso dessa força pelo sujeito. É apenas de forma mediada que a pulsão – limite entre o somático e o psíquico – pode ser acessada pelo sujeito. É aí que entrará a diferenciação conceitual entre pulsão de morte e pulsão sexual.

Se é possível a Freud falar em “pulsão de morte” e “pulsão sexual” é porque este encontra na segunda a possibilidade de criação pelo direcionamento. Explicando e abrindo a sentença, Freud encontra uma forma de expressão da pulsão que, por passar para zonas erógenas e por ir em direção à criação e ao “aumento de vida”, não visa a destruição do sujeito nem seu gozo mortífero. O que se quer dizer aqui é que a pulsão sexual, diferente da pulsão de morte, não visa a repetição infinita que destrói; ao contrário, isa a criação ou a expressão e a descarga. 

O “lado” puramente pulsional que busca, sem mediação, realizar a pulsão “da forma que vier” é, na segunda tópica freudiana, o que se chama Es, alemão que corresponde a Isso (traduzido pela Imago e assim popularizado como Id). Nesse campo estariam todas as pulsões que investiriam os objetos de desejo do sujeito. Um investimento é um direcionamento da pulsão a um objeto, dando à pulsão uma forma de se realizar, forma esta que ele não possui. As pulsões “em si” não teriam nem forma, nem um investimento próprio, mas só seria possível encontrar pulsões investidas em algum objeto, sendo a teorização acerca da pulsão uma “mitologia” como o próprio Freud deixaria claro em suas conferências.

Pois bem, uma diferenciação conceitual última ainda se faz necessária entre pulsão e desejo. A diferença da primeira para o segundo é que a primeira necessariamente não possui uma forma de expressão salvo pelo segundo, ou seja, o desejo é uma das formas de expressão da pulsão, sendo o objeto, portanto, completamente variável, especialmente no caso da pulsão sexual. Um psicanalista freudiano não encontra as pulsões soltas na fala do seu analisando: encontra, ao contrário, as direções do seu desejo e os investimentos pulsionais que este fez mediante a reiteração desse desejo. A pulsão, de modo geral, se encontra, nesse sentido, entre algo mortífero (pulsão de morte) e algo criativo (pulsão sexual transformada em desejo pela linguagem). Com Lacan, adiante, veremos de que modo toda pulsão é, na verdade, uma pulsão de morte, sendo a pulsão de vida apenas uma sexualização ou uma doação de forma. Veremos, também, como a linguagem entra na equação de modo a substituir, no Édipo, as figuras de pai e mãe “encarnadas”

 


[1] Isso, Eu, Supereu ou Id, Ego e Superego ou ainda Es, Ich, UberIch.

[2] Para a psicanálise, neurose, psicose e perversão são três estruturas subjetivas que ilustram como o sujeito se relaciona com a falta deste primeiro objeto materno suposto de completa-lo. Na neurose, o sujeito se relaciona com a falta tendo ela em si e buscando supri-la por vários objetos intercambiáveis entre si; na psicose, a falta inexiste daí o delírio, as vozes e a exclusão da linguagem comum, além da autorreferencia pura; e na perversão a falta é a um só tempo percebida e mascarada pelo sujeito, daí o objeto específico e necessário de cada perverso (pés, mãos, dor, locais abertos ou fechados, etc.)

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