Dia-lógos: sobre o Amor Platônico


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Hércules – Pat: é te pedir muito para você explicar-me, por aqui, a definição exata para amor platonico?

Patricia Aguiar – Hercules, primeiro eu não sei se existe uma definição exata do amor platônico, segundo, quem sou eu para definir isso exatamente? Posso deixar pra vc minha impressão dessa amor/eros platônico… A mim parece que o amor platônico se refere ao que nos impulsiona, nos move e que só podemos ver no outro… Tenho a impressão que o lance é: amamos o amor, amamos que que há no outro e não o outro em si, entende? Talvez por isso possamos amar e desamar várias vezes ao longo da vida… Amar o amor dá aquela sensação do ideal em Platão e o ideal está sempre fora do nosso alcance sensível… Talvez por isso colecionemos ilusões em relação ao amor…

Patricia Aguiar – Essa é só a minha impressão… Longe de ser uma definição…

Uriel Souza – Pat, permite uma complementação?

Hercules – eita, que isso tá mais do que bem dito! Agora… uma vez você explicou-me, para além disso, no contexto sócrates-alcebíades. Tu te lembras? Tem como falar sobre?

Patricia Aguiar – Nós lemos o Alcibíades I com o paulo, lembra, Hercules? Naquele diálogo, Platão apresenta um Alcibíades jovem, lindo, amado por Sócrates, na posição de “amante”. Nesse diálogo, Platão apresenta a noção do Daimon, fala da virtude, da relação amante(mais velho)-amado (mais jovem) como parte da educação ateniense. Fala da preparação do jovem Alcibíades para ser um governador. No Banquete, Alcibíades já é um homem feito, um general que participa de batalhas, já não é mais discípulo de Sócrates, ou seja já não é mais seu “amado”, pois já acabara seu período de orientação… Mas aqui, Alcibiades representa uma inversão nessa relação amante-amado. Ou seja, Alcibíades, mesmo no lugar de amado, AMA seu amante – o que nao faz parte da relação e não suporta o fato de não ser mais o amado de Sócrates… Esse é o motivo do porre e da invasão surtada no banquete da casa de Agatão. Faça sua complementação, Uriel Souza.

Uriel Souza – É importante, acho eu, notar que uma estratégia de leitura de Platão pode muito bem modificar a posição do amor na sua obra. Se pensamos o amor como uma escala progressiva n’O Banquete, sendo Sócrates sua culminação máxima, temos aí uma concepção (que, por sinal, é a minha leiura de Platão, muito apoiada, igualmente, no Fedro e n’A República); se adotamos uma posição de que paltão é uma espécie de roteirista e só deixa as coisas acontecerem, tendo em Sócrates um personagem principal similar ao Bentinho (que é principal mas nem por isso traz consigo a verdade), temos outra concepção.

Expondo minha leitura de Platão – que é muitíssimo interessada em fazer do Platão um grande intelectual e, como todo grande intelectual, um sabedor da potência que tem os desejos mais viscerais -, penso que é fundamental que notemos, especialmente n’O Banquete, que Sócrates não fala. Diz ser a única coisa que pode afirmar sei ser o amor, mas procede a uma narrativa de um acontecimento. Desde já se enuncia uma posição em relação ao Amor: saber do amor é sempre saber da boca de alguém que tem alguma conexão com os Deuses, a menos que você tenha essa conexão. Isso fica explicitado mais tarde quando o amor é tido como aquilo que liga homens e Deuses. Anterior a isso, Sócrates chega à seguinte conclusão: amor é sempre amor de algo que não se tem, sendo este algo Bom ou Belo.

Ora, não diz Sócrates que sabe algo, mas remete esse saber não a si mesmo mas a outro? Sob esse aspecto, não é exatamente essa atitude uma atitude já amorosa de Sócrates? Explico: Sócrates afirma que o amor é amor do que não se tem; Sócrates diz ter o conhecimento do que o amor, mas releva, em verdade, que quem o possui é Diotima, sendo ele mero repetidor das paalvras que ouviu; logo, Sócrates desde já ilustra sua concepção de amor na sua própria atitude, sendo sua atitude propriamente filosófica, que, pra ele, dizia: amor à sabedoria. Aqui, fechamos um círculo: o amor é a priori definido falta de algo, Sócrates tem a falta desse algo e vê seu preenchimento pela narrativa de seu encontro com aquela que tem contato com os Deuses. Existe forma melhor de comprovar a própria tese do que agindo em conformidade com ela?

Seguindo a si mesmo, Sócrates inscreve no outro seu saber, demonstrando o poder do amor à sabedoria (Filosofia), qual seja: o de ser capaz de, ao mesmo tempo, possuir uma coisa e não possuí-la, sendo que a não-posse é exatamente aquilo que confirma sua pose. De forma menos descomplicada: é apenas na medida em que é uma sacerdotisa (Diotima) que diz que aquilo se configura enquanto Sabedoria e é só e tão somente enquanto discurso advindo da boca de uma serva dos deuses (Diotima) que esse saber sobre o Amor se mantém saber enquanto tal. Sobre não posse e posse, quando ela (Diotima) narra, ela mais ou menos fala que o amor é filho de Eros e Afrodite e, por isso, às vezes morre e depois ressuscita, é pobre e ao mesmo tempo amante de coisas belas, é faltoso, mas as vezes e preenche, and so on and so forth. De maneira análoga, somente enquanto não possuidor do conhecimento sobre o amor é que Sócrates pode amar o conhecimento e denotar que, de fato, ama a sabedoria. Só assim Sócrates é, portanto, Filósofo.

Entretanto, não é que Sócrates não saiba o que é o amor: é que o amor só possa ser dito na medida em que se tem algum contato com os Deuses, por um lado, e que é intrínseca à condição de amante da sabedoria que esta sabedoria seja sempre algo posto como buscado. Tal é o sentido da evocação de Diotima. Não estranhamente, isso confirma precisamente aquilo que Sócrates havia dito antes: o amor tende ao Belo e ao Bom/Bem, que é, por definição, algo divino. É, também, cosmético, no sentido grego, qual seja, que dá ordem ao caos.

A entrada de Alcebíades, entretanto, aparece muito mais como uma confirmação do que como uma refutação dessa tese. Sócrates expõe a parte cosmética, bom filósofo que era: Alcebíades encarna a parte caótica, como bom soldado. Não é, n’O Banquete, o par Alcebíades-Sócrates a exata confirmação da tese de Diotima?

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