Pequeno escrito sobre o filme Laranja Mecânica


VIA FACEBOOK

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POR URIEL SOUZA

Laranja Mecânica começa por nos apresentar um personagem bem, digamos, Horrorshow. Isso de cara nos dá já uma noção de uma certa dose elevada de perversão inerente ao personagem. Isso porque o personagem é fundamentalmente um fetichista e, poranto, alguém que se inscreve no seu auto centramento narcísico, sem muito ligar para aquilo que deseja/precisa o outro.

Não é a elevação à categoria de palavra a partir da condensação (“Horrorshow”, horror+show) indicadora da condição fundante do personagem, qual seja, a de transformar juntar o lixo do social na sua maior forma de prazer (tornar um “horrorshow“, show de horrores, um elogio)? Não é essa ação mesma um fetiche seu e mesmo condição de possibilidade da sua existência enquanto criatura que sente prazer? Com isso em mente, vamos adiante.

Dizia que já começa o filme a nos mostrar um personagem fetichista e isso se mostra na forma como ele cria palavras de forma intencional e objetiva, uma vez que não são palavras quaisquer, mas palavras que descrevem todas as suas cenas de prazer. O filme avança demonstrando várias vezes esse exagero inerente ao personagem (espancando o velho e depois a outra gangue, o assalto à casa, etc), até o ponto em que o primeiro confronto com a Lei ocorre. O sujeito que representa a Lei (do reformatorio)não demonstra qualquer diferença da personagem principal.

De maneira análoga encarna a Lei e se vê como a própria Lei que deve exercer transformações. O encontro deve, portanto, castrar em alguma medida os prazeres do “garoto”. Qual não é a nossa surpresa ao vermos a cena dos dois deitados na cama e do acesso total do homem do reformatório ao corpo do garoto? Qual não é a graça de ver o cara ávido por saber, da boca do rapaz, se houve estupro ou qualquer coisa assim?

Pela atitude dele, longe de supor qualquer tentativa de colocar o rapz numa posição confessional, me parece muito o contrário: há um gozo – que não significa prazer – desse homem em ouvir os atos de perversão dos rapazes. Lá onde se é a Lei, se é também o sem-lei. Ser a lei é ser a única exceção a ela, uma vez que você não se aplica a você mesmo. A alteridade surge então como oposto necessário ao gozo do homem pela audição, uma vez que a ele próprio é proibida a ação na realidade, mas não ao gozo ilimitado, qual eja, o mediado pelas “confissões”.

A posição confessional não uma à qual se segue uma de arrependimento, mas a uma que se segue o gozo do próprio ouvinte. Nessa aliança o homem do refarmatório está sempre implicado como alguém dependente dos perversos que ele tanto parece desejar exclui…Ver mais

Nesse sentido, temos no final do filme uma espécie de síntese hegeliana: o particular e o geral são sintetizados num singular, encarnado no personagem sendo “descurado” ou contaminado.

O que é todo esse processo que o rapaz passa da cura à (re)contaminação, a saber a surra que leva dos amigos, dos velhos, da pessoa que ele assaltou e cuja esposa se matou e etc, se não a exata confirmação da tese anterior de que, de fato, ele era a verdade (ἀλήθεια) da sociedade, mas uma verdade que é tal qual o que Lacan chamou de objeto pequeno “a”, ou seja, aquilo que é mais a própria sociedade do que a própria sociedade, i.e. a violência? Em outros termos, qual não é a dificuldade da sociedade aceitar que aquela pessoa que encarna todo tipo de excesso é, de fato, o produto concentrado dessa sociedade e, portanto, sua pura identidade, não contaminada? ou ainda, de uma terceira forma: o que significa isto, reconhecer que a moralidade é, na verdade, uma falsidade absoluta e que a violência é a verdade de um social sem restrições?

Esse segundo bloco (da cura), pra mim, só faz sentido, se pensarmos aqui numa frase do Nietzsche, qual seja: quanto de verdade suporta seu espírito? Suponho que esse segundo movimento, no qual a violência é devolvida a ele, representa muito mais o reconhecimento de que isso (a violência, ainda que excessiva) é algo inerente ao humano e constitui-se num ato de violência de muito maior grau privá-lo disso e torná-lo, nas palavras do padre “alguém sem escolha” do que simplesmente o que ele faz. Nesse ato de privação da sua possibilidade de violência a sociedade mostrou que é capaz de fazer com ele exatamente o mesmo que ele fez com ela quer seja via ciência (o experimento) quer seja pessoa à pessoa (as vinganças).

A semelhança aqui com Fantasma da Ópera é clara: o que é o Fantasma, especialmente nesse trecho, se não alguém que demonstra a sua cara exatamente por cobri-la, i.e. ele se apresenta coberto e é exatamente essa cobertura que revela sua verdadeira natreza de não besta. a situação é perfeitamente a mesma: toma posse da voz de Cristine, mas não para extrair dela qualquer máximo da voz, mas pra tomá-la pra si, pro seu reino.

Não é o Fantasma o contraponto (e a desejada e suposta consequência lógica pós tratamento de cura) de Alex, na medida em que um esconde estruturalmente o que o outro mostra, i.e. a feiura? Perguntando de outro jeito: não é a beleza de ambos e sua identidade exatamente a contradição que encerram, a saber, a tentativa de elevação da sua Alteridade (em relação ao socialmente corrente) à categoria de Identidade? Não é exatamente neste meio que eles buscam criar que eles, sem perceber, já sempre operam e tem suas potencialidades? E, por fim, não é exatamente quando seu sonho finalmente se realiza que ambas as histórias terminam, mas não se fecham?

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