O que faz um edifício ser belo?


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O que faz um edifício ser belo?

Fábio Duarte

  • The Gates, instalação de Christo e Jeanne-Claude no Central Park<br />Foto de Foto Wolfgang  [http://christojeanneclaude.net/tg.html]]
The Gates, instalação de Christo e Jeanne-Claude no Central Park
Foto de Foto Wolfgang [http://christojeanneclaude.net/tg.html]]

O que faz um edifício ser belo? Esta é a pergunta que guia o livro Arquitetura e Filosofia, de Mauricio Puls, recém-lançado pela editora Annablume. É uma pergunta espinhosa, propensa aos subjetivismos simplistas do “gosto não se discute”. Ainda mais se partirmos da afirmação do historiador Giulio Carlo Argan de na cidade “todos os edifícios, sem exclusão de nenhum, são representativos e, com freqüência, representam as más formações, as contradições, as vergonhas da comunidade” (1).

Quando visitamos cidades antigas, a aparente homogeneidade ou coerência de estilos de seus edifícios comumente reflete menos essa presumível unidade e mais a nossa incapacidade de distinguir historicamente a multiplicidade arquitetônica que apresentam. Nas nossas cidades contemporâneas conseguimos mais facilmente distinguir diferentes estilos arquitetônicos, e aí a pergunta sobre quais edifícios podem ser considerados belos – sem gostos individuais, com base em critérios estéticos consolidados – torna-se difícil. O crítico de arte americano Haroldo Rosenberg (2) sinaliza esta angústia estética contemporânea dizendo que “antigamente, um novo estilo de arte ou o trabalho de um artista desconhecido só adquiriam notoriedade depois de passarem pelo crivo da crítica e da apreciação estética. Hoje, o processo muitas vezes funciona às avessas: primeiro se chama a atenção do público, depois vem a discussão e a avaliação crítica”.

O desafio que Puls se coloca é justamente entender como esse crivo estético se formou ao longo da história. Para isso, seu livro é dividido em 21 capítulos onde discute as bases filosóficas dos critérios estéticos do belo dos pré-socráticos a Umberto Eco, passando por Kant, Marx e Simmel. A maior parte dos capítulos apresenta binômios filosóficos, onde Puls consegue estabelecer diálogos entre Bachelard e Foucault, Schopenhauer e Nietzche, Descartes e Leibniz – por vezes a partir de semelhanças e continuidades, por outras por oposição conceitual ou argumentativa.

Uma das questões colocadas para discutir o belo em arquitetura é se seriam válidos os mesmos critérios das artes plásticas. Puls inicia a sua argumentação colocando que, arte ou arquitetura, trata-se de uma discussão de linguagem: “inicialmente absorvido pelo ambiente, o homem se afasta das coisas e por isso se torna capaz de designá-la pela linguagem” (p. 10). Em mais um degrau para a definição da arte como linguagem, Puls argumenta que os objetos de arte serviriam para “desvelar nossa subjetividade”, e continua dizendo que a arte “se distancia da vida cotidiana para que, após a experiência estética, possamos desejar um fim diferente daqueles que orientam nossa existência imediata, qual seja – mudar de vida”. Essa colocação já desloca a obra de arte para o centro de nossa relação com o mundo – ela não é apêndice de diletantismo, mas algo construído para (nos) entendermos no mundo.

Para chegar ao objeto arquitetônico, Puls dá o passo definitivo: é preciso considerar, em primeiro o lugar, que diferentemente de qualquer outra manifestação artística, as edificações são a “única arte que comporta a satisfação das necessidades práticas dos indivíduos”. Não importam as dimensões ou as funções de um edifício – tampouco sua beleza, a utilidade lhe é uma característica inalienável, e aí reside um dos pontos críticos ao se pretender realizar ou julgar o belo na arquitetura. E ainda, distintamente de outras manifestações artísticas que podem se realizar isoladamente, sem a “contaminação” de outras obras, como um ente único, a edificação se faz necessariamente dentro de um contexto ambiental e urbano.

Portanto, a análise isolada de uma edificação carece de um pressuposto intrínseco da arquitetura que é sua posição entre outras edificações – posição que pressupõe um contágio de como nos apropriamos de uma edificação e de como a enxergamos. Uma obra de arte pode secolocar para um diálogo com outras obras ou em um contexto determinado (como as esculturas de Richard Serra, de Christo, ou a land art), enquanto a arquitetura já nasce desse diálogo com o entorno. Voltando a Puls, “por isso o edifício não expressa apenas o sujeito, mas também o outro com o qual ele se relaciona”.

Se a leitura dos binômios filosóficos de Mauricio Puls já seria instigante pela busca das alterações ao longo da história do que pode ser considerado belo na arquitetura, ela se torna um desafio gratificante para o leitor, principalmente para o leitor arquiteto, que lida, por sua vez, com dois binômios no cotidiano: buscar realizar um projeto belo mas utilizável, focar-se tanto no seu objeto arquitetônico sabendo que ele apenas se realizará ao se “contaminado” pelos outros, pelo contexto urbano. Puls não se detém nas posições dos próprios arquitetos, tampouco se aprofunda no patamar que está a discussão do belo na arquitetura contemporânea. Não era sua intenção. Acabando também com Argan, “naturalmente, sem uma séria crítica do passado não há perspectiva possível para o futuro e vice-versa. Mas estamos certos de que a crítica do passado, especialmente do passado próximo, foi feita a fundo? Ou não foi com freqüência desviada em revivals tão sugestivos quanto inconseqüentes?”

notas

1
ARGAN, Giulio Carlo. História da arte como história da cidade. São Paulo, Martins Fontes, 5ª Edição, 2001, p. 243.

2
ROSENBERG, Haroldo. Objeto ansioso. São Paulo, Cosac Naify, 2004, p. 229. 

[leia também “Construindo o pensar arquitetura“, de Leonardo Rodrigues Pereira sobre o livro de Maurício Puls]

sobre o autor

Fábio Duarte é arquiteto e doutor pela USP, professor do mestrado em gestão urbana na PUC-PR, e autor, entre outros, de Crise da matrizes espaciais. Arquitetura, cidades, geopolítica, tecnocultura. São Paulo, Perspectiva, 2002.

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