Entrevista com Peter Greenaway


TEXTO RETIRADO DE Revista Veja

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“O cinema de hoje é insatisfatório e bobo”, ataca Peter Greenaway
Diretor britânico esteve no Brasil para participar do ciclo de palestras Fronteiras do Pensamento, nesta terça-feira

Carol Nogueira

O cineasta Peter Greenaway, que veio ao Brasil para palestra

O cineasta Peter Greenaway, que veio ao Brasil para palestra (Divulgação)

O cineasta britânico Peter Greenaway sempre fez questão de perturbar seu interlocutor, seja em filmes como O Livro de Cabeceira e O Cozinheiro, o Ladrão, Sua Mulher e o Amante, seu longa mais bem sucedido, seja em entrevistas e palestras como a que deu no ciclo Fronteiras do Pensamento, na noite desta terça-feira, em São Paulo. Há anos, o diretor afirma que “o cinema está morto” e tenta propor meios diferentes de produzir filmes. Para ele, o formato atual está desgastado. “Nossos olhos estão constantemente se movendo pelo ambiente, não vemos o mundo em uma moldura, então, por que o cinema tem de ser assim? Esse formato limita a experiência humana”, disse o cineasta ao site de VEJA.

Greenaway, de 70 anos, busca uma nova maneira de exibir filmes. Em 2006, ele iniciou um trabalho de instalações visuais chamado Nine Paintings Revisited, em que faz um remix de pinturas famosas de artistas renascentistas, como Rembrandt e Leonardo da Vinci, adicionando som e texto aos quadros. “Antigamente, você fazia um filme e ele estava fadado a ficar do mesmo jeito para sempre. Hoje, posso fazer um filme na sexta-feira à noite, exibir ao mundo todo no sábado de manhã e transformá-lo em outro projeto ao longo da semana seguinte.”

A procura pelo novo não o torna indiferente ao que se faz hoje. O diretor ainda critica a tudo e a todos. Diz, por exemplo, que achou o último filme de Martin Scorsese entediante, e que não se lembra do último de Steven Spielberg. Mas é difícil separar, no discurso do cineasta, os argumentos das frases de efeito. Greenaway é um provocador. “Atores são prostitutos. Eles se vendem por vaidade e por dinheiro. Jornalistas, também. São basicamente parasitas que se alimentam do trabalho dos outros e não produzem nada novo”, ataca. “Já fui chamado de louco muitas vezes. Mas acho que a sociedade me autoriza como seu guia na busca pelo novo. Eu posso ir aonde vocês não querem.”

Leia abaixo a entrevista com o inquieto cineasta britânico Peter Greenaway.

O que acha do cinema feito hoje? Insatisfatório, não dá asas à imaginação. É bobo, são apenas histórias para boi dormir. Ainda há espaço para esse formato que está aí há 170 anos, mas as pessoas desejam o novo, então, temos de mudar alguma coisa. O mundo muda e o cinema tem de mudar. O planeta tem 7 bilhões de pessoas. Todas elas estão sonhando e realizando coisas, mas ainda assim é difícil fazer algo completamente novo. Acho que uma maneira de criar algo novo é pela combinação de coisas antigas. A história é cíclica. Quando nos cansamos de Schoenberg, tivemos de esperar até os anos 1960 para que surgisse algo novo na música. A experiência ainda era válida, mas não nos empolgava mais. Hoje, vivemos em busca da “nova grande coisa”.

E de onde virá a próxima novidade? Não tenho ideia, mas ela virá. Eu cresci vendo filmes da nouvelle vague e peguei a grande época do cinema italiano, quando havia gente produzindo coisas incríveis. Mas o centro da gravidade não é mais a Europa, que é um continente antiquado. A mudança provavelmente virá da Ásia, ou até do Brasil, porque há muito dinheiro fluindo no país agora. Dinheiro significa lazer, lazer significa pensar e pensar significa criar. Se cruzarmos nossos dedos, poderá haver uma revolução cultural nesse país ainda nessa década. São as pessoas que vêm de baixo que mudam tudo, que experimentam, não os dinossauros de Hollywood. Eles não querem isso, eles querem dinheiro.

O problema é a falta de criatividade? Não. Há muitas outras pessoas como eu, empurrando as barreiras e abrindo novos caminhos. Mas Hollywood não é assim. Eles usam o cinema como propaganda. Uma comissão de pessoas se junta e diz: “Temos de arrumar um jeito de ganhar 50 milhões de dólares, como faremos isso?” E as pessoas vão dando suas sugestões. É por isso que os filmes são tão amenos e inofensivos, porque são feitos por várias pessoas, e não por uma só. O problema é que esse tipo de filme não dura. Nos museus, você tem cerca de 3% do que já foi produzido pela humanidade. E os outros 97%? A civilização humana em si é um processo de desperdício.

Como o senhor vê a internet? Costumavam dizer que o cinema foi o meio que se espalhou mais rápido. Foi inventado em Paris em 1895, mas, 10 ou 15 anos depois, todo mundo conhecia o cinema. Só há uma coisa que se propagou mais rápido: a internet. É assim que nos comunicamos agora. Esses instrumentos, celulares, tablets etc. são sofisticados agora, mas seus filhos e netos vão achar tudo isso chato e muito fácil. O choque do novo é inevitável. Minha avó teria achado esse gesto incrível (Greenaway se levanta e pressiona os interruptores para acender e apagar as luzes da sala).

O que o senhor propõe é muito semelhante à videoarte feita hoje. Não é? É parte do mesmo fenômeno. Eu acho que a videoarte é chata. É só masturbação. Quando eu faço um filme de 120 minutos, faço vários pedaços de vídeos que depois são colados em uma coisa só. Enquanto isso, a videoarte é só projeção.

O que acha do 3D? É entretenimento fácil. Minhas filhas amam. Mas eu não acho que vá mudar o cinema. Eu trago algum objeto para perto de você e na quinta vez que eu fizer isso, você já vai achar chato. Temos de fazer algo mais poderoso do que criar mais um artifício. O 3D só serve para arrastar as pessoas para o cinema. James Cameron disse que era isso o que ele queria com Avatar, e ele obteve sucesso. É o filme que mais arrecadou dinheiro na história, mas é um filme estúpido e lamentável. É sobre um aleijado que salva o universo. Você não pode estar falando sério. Quão estúpido isso é? É uma ideia absurda, impossível.

E A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese? Aquilo foi terrível. Que filme horrível. Todo aquele sentimentalismo. Até a minha filha de sete anos disse: “Papai, temos de ir embora, porque esse filme é entediante”. Já o de Steven Spielberg, As Aventuras de Tintin, é mais sofisticado e rápido. Mas, mesmo assim, duas horas depois que você o viu, já o esqueceu. Quando você coloca muito dinheiro em um filme, sabe que ele não vai durar. Se pegarmos os filmes mais empolgantes que já vimos, eles certamente custaram menos de 500.000 dólares.

O senhor diz que os atores só têm duas funções na tela: transar e morrer. Hitchcock dizia que atores são como gado. São basicamente pessoas que você veste em figurinos exagerados e diz: “Vá lá e faça sexo” ou “Vá lá e morra”. São pessoas horríveis, prostitutos que se vendem por vaidade e, é claro, por dinheiro. Mas acho que o ator não pode ser visto dessa forma, apenas como uma pessoa que você manipula. Quando eu filmo, faço no máximo cinco tomadas. Se você é Woody Allen, faz 300, e se é Scorsese, faz 3.000. Com poucas tomadas, eu consigo ver o ator fazendo a mesma cena de formas diferentes, sem que esse processo se torne mecânico. É fascinante assistir à transformação do ator, porque a pessoa desenvolve o personagem. Eu já trabalhei com gente muito inteligente, como Helen Mirren e John Gielgud, mas acho que o cinema não aproveita essa inteligência. Também acho que precisamos educar os atores de outra maneira. Usamos os atores da mesma forma que o teatro usa, mas o cinema é um meio diferente.

Existem bons talentos na geração atual? Eu não vou muito ao cinema, mas preciso me atualizar para montar elenco. Estou trabalhando em cinco filmes agora e preciso de um elenco grande. Sempre vejo DVDs e procuro atores de que preciso. Estou fazendo um filme sobre (o diretor russo) Sergei Eisenstein. Encontrar alguém que o interprete é um desafio, porque ele era gordo e feio, e Hollywood não produz bons atores desse tipo. É um estereótipo cheio de contradições. Mas existe gente boa na nova geração, sim. Eu acabei de fazer um filme (Goltzius and the Pelican Company) com um ótimo ator holandês, Ramsey Nasr. Mas ele não é exatamente um ator, ele é um poeta, então conhece muito sobre linguagem e como usá-la. Mas é melhor assim. Muito treino pode ser ruim para o ator, pode matar a espontaneidade.

O senhor já foi chamado de louco muitas vezes? Muitas vezes. E abusado, também. Já colocaram ameaças na minha caixa de correio. Uma senhora certa vez me parou na rua e disse: “O que diabos a sua mãe pensa de você, senhor Greenaway?”. As pessoas não querem mudar seu status quo. (O compositor americano) John Cage costuma dizer que, se você introduzir mais de 20% de novidades em qualquer trabalho de arte, cuidado, porque você vai perder 80% do seu público. As pessoas ficam perturbadas com tudo o que é novo. Acho que a sociedade me autoriza como seu guia na busca do novo. Eu posso ir aonde vocês não querem ir.

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