Circuito de filmes de arte encolhe no Brasil


TEXTO ORIGINAL RETIRADO DE Valor Econômico

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No último fim de semana, durante o Show de Inverno, encontro de executivos do mercado cinematográfico realizado em Campos do Jordão (SP), Jean Thomas Bernardini, figura-chave do cinema de arte no Brasil, não sabia se ria ou se chorava. Os motivos para rir ele trouxe a público ao anunciar um feito e tanto: sua empresa, a Imovision, tem os direitos de distribuição de 13 filmes que, a partir da semana que vem, serão exibidos na competição e na mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes. Isso foi possível porque vários dos títulos – de diretores como Michael Haneke, Abbas Kiarostami e Alain Resnais – ele comprou ainda no roteiro. Seu faro deixou os presentes espantados.

Mas o empresário andava também queixoso. Inconformado com as dificuldades que enfrentara para conseguir telas em 3D para o documentário “Pina”, de Wim Wenders, Bernardini faz um alerta: o circuito de arte do Brasil está encolhendo. “Temos cada vez menos espaço”, diz. “Tenho todos esses filmes de Cannes nas mãos e, apesar de ter motivos para comemorar, também fico preocupado. Já sei o que vou passar para lançar alguns deles. ‘Pina’ foi massacrado pelo circuito.”

O filme de Wenders fez, até agora, 97 mil espectadores. O que tira Bernardini do sério é o fato de o documentário sobre a coreógrafa Pina Bausch (1940-2009) ter sido expulso do circuito enquanto ainda lotava sessões. Na corrida do mercado brasileiro por uma tela em 3D – o atual pote de ouro da indústria -, ficou evidente que não há lugar para um produto autoral. Mas o sinal de alerta que Bernardini faz soar não se restringe ao novo formato. Também no 2D a disputa por uma tela se mostra cada vez mais feroz.

Se, em 2008, as salas de arte representavam quase 10% do circuito nacional, elas agora não chegam a 7% do total (veja quadro nesta página). Estima-se que, até o fim de 2012, se limitem a 5% ou 6% das telas. Mais do que reflexo do desinteresse do público, essa diminuição do circuito de arte, também chamado de independente, parece ser fruto de uma radical transformação do mercado de cinema.

Denis Manin/Films Du Losange / Denis Manin/Films Du Losange
“Amour”, novo filme de Michael Haneke (foto), atração do Festival de Cannes

“O mercado de exibição no Brasil está vivendo uma competição inédita por espaço”, afirma Paulo Sergio Almeida, criador da Filme B, empresa especializada em análise e números do cinema. “Com a chegada do digital, o cinema terá de vestir calças compridas. O mercado de filmes independentes terá de se adaptar ao novo cenário, e cair na real.”

É que o Brasil atravessou a primeira década dos anos 2000 como um dos principais mercados do mundo para os filmes de arte. Apesar de concentrado em São Paulo e no Rio de Janeiro – as duas cidades reúnem mais de metade das 160 salas -, o circuito independente brasileiro era muito mais significativo do que o da vizinha Argentina ou mesmo que o de países europeus, como Espanha e Portugal. Seria maior do que o mercado suporta de fato?

“Já está provado que o circuito independente não cresce para o interior do país. Além disso, com o digital, não tem mais sentido pensar na dicotomia arte versus comercial”, responde Adhemar Oliveira, sócio da rede Arteplex, que coloca, em telas vizinhas, “Os Vingadores – The Avengers” e um filme iraniano ou tailandês. “O que vai acabar é o gueto.”

Em São Paulo, a principal baixa nesse circuito deu-se no ano passado, com o fechamento das seis salas do Cine Belas Artes; Belo Horizonte e Brasília também perderam telas; e, no Rio, o Grupo Estação está em recuperação judicial – nova figura jurídica da concordata.

“O problema que essas salas enfrentam não tem a ver com o público. O público para esse tipo de filme não diminuiu. O que mudou foi a lógica comercial de exploração das salas”, diz André Sturm, ex-dono do Belas Artes, referindo-se ao gigantismo dos “blockbusters”. O primeiro “Shrek” (2001), para se ter uma ideia, estreou em 235 salas; “Shrek Terceiro” (2007), em 575. “Homem Aranha”, campeão disparado das bilheterias em 2002, estreara em 500 salas; seu equivalente mercadológico de 2012, “Os Vingadores”, aterrissou em quase mil telas.

“Atualmente, a programação é idêntica em todos os multiplex. Há cinco anos, a programação dos shoppings era diferente”, afirma Sturm. “Ainda era possível conseguir uma sala para um filme de arte em um ou outro complexo. Hoje, não é mais.” Mas, do outro lado da ponte-aérea, no Rio de Janeiro, Marcelo Mendes, sócio do grupo Estação, enxerga com olhos diferentes o mesmo fenômeno. “Imagino, justamente, que o crescimento do circuito como um todo esteja provocando o encolhimento das salas de arte pela concorrência”, diz. “Os grandes complexos, muitas vezes, exibem de tudo, inclusive os filmes ditos de arte. Mas, nessas salas, esses filmes não alcançam grandes resultados e acabam tendo o seu potencial diluído.”

As explicações para a diminuição do espaço para cinematografias outras que não a hollywoodiana podem ser várias – e até contraditórias -, mas, a unir todas elas, estão os números. E não só aqueles relativos à quantidade de telas. O Filme B registrou, em 2011, uma queda na “diversidade” de filmes lançados no país. Enquanto, em 2009, pudemos ver filmes de 32 nacionalidades diferentes, em 2010 esse número tinha caído para 25.

“O risco que corremos, se ficarmos todos dependentes da lógica dos multiplex, é o de acostumar o público a um só tipo de linguagem”, pontua Bernardini, que é também dono da Reserva Cultural, cinema dedicado, sobretudo, aos filmes europeus. “Levamos anos para formar o público cinéfilo que a cidade [de São Paulo] tem. Se perdermos esse público, levaremos 20 anos para retomá-lo.”

O que está evidente é que o mercado encontra-se em um momento de transição. O circuito exibidor está crescendo, a digitalização está em curso e o mercado de DVD – que equilibrou, durante anos, as contas dos filmes independentes – minguou. “Todos sabemos que o processo de digitalização pode levar tanto à concentração quanto à diversificação”, diz Adhemar Oliveira. “Com a nova tecnologia, basta apertar um botão em qualquer lugar do mundo para que um filme seja exibido.” Que botões o circuito brasileiro vai apertar na próxima década ninguém sabe dizer. Mas o fato é que, apesar de termos muitos dos filmes do Festival de Cannes já comprados, corremos o risco de, a depender de sua limitação no circuito, mal conseguir vê-los.

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