A Filosofia para a Sala-de-Aula de Chesterton


RETIRADO DO seguinte sítio http://www.hottopos.com/videtur7/a_filosofia_para_a_sala.htm

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A Filosofia para a Sala-de-Aula de Chesterton

Tradução e apresentação: Gabriele Greggersen
luna@spider.usp.br

O escritor britânico, nascido em 1874, Gilbert Keith Chesterton, que se tornou um dos maiores apologetas laicos do cristianismo, publicando mais de 60 livros em vida, destaca-se pela firmeza inabalável com que defendia suas idéias e atacava as contrárias, mostrando lógica, clareza e sobretudo, determinação. Dele diz a “The American Chesterton Society” (http://www.chesterton.org.):

Chesterton não foi apenas um criador de personagens interessantes: ele mesmo foi uma figura inegualável. Era um dos homens mais amados do seu tempo… Embora freqüentemente citado, Chesterton é amplamente negligenciado. Talvez seja de fato mais conveniente esquecê-lo, por ter conjurado tantos “ismos” que vieram a se realizar de fato: fatalismo, materialismo, relativismo moral, pouco caso por tudo que é religioso, censura pela imprensa (ao invés de censura da imprensa), depreciação estética das artes, crescimento dos males em detrimento dos benefícios trazidos pelos “grandes negócios” e dominação política, com os resultados nefastos, devidos à dependência de salários e a perda de liberdade individual. As palavras de Chesterton soam mais verdadeiras hoje do que quando foram escritas há mais de 60 anos atrás. Embora todos esses assuntos pareçam bastante sérios, é importante notar que Chesterton sempre os abordou com grande senso de humor. Os grandes dilemas mundiais tremem sob as suas sonoras risadas… Hoje ele nos oferece uma visão de sociedade saudável, baseada no sentimento do numinoso, de gratidão, e da dignidade humana dada por Deus. Mas sua singularidade e importância entre os críticos do Modernismo deve-se não só à profundidade de seu pensamento, mas também à acessibilidade de seu estilo – pelo fato de ter aplicado a linguagem comunicativa de jornalismo, recheada de senso crítico histórico, humor, graça, e bom senso, para expressar a sua visão… ‘O que está errado com o mundo é que nós não perguntamos sobre o que está certo’.

Neste artigo, Chesterton elucida as razões da queixa do professor do famoso O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupas(1), ou seja, o que está errado com essas escolas, que é precisamente a falta de ensino da lógica. Buscamos com esse exercício de tradução exemplificar ainda, como a nitidez da percepção clara desse clássico da literatura, veicula profundas lições intemporais, válidas especialmente para o educador cristão.

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“The world will never starve for want of wonders, but only for want of wonder.”

A Filosofia para a Sala-de-Aula

G.K. Chesterton (Daily News, 22 de junho de 1907)

O que o homem moderno precisa compreender é simplesmente que toda a argumentação começa com uma afirmação ponto-de-partida; isto é, com algo de que não se duvida. Pode-se, é claro, duvidar da afirmação base, mas, nesse caso, já estaria dando início a outra argumentação diferente, propondo que se parta de outra suposição. Todo argumento inicia por um dogma infalível, e esse dogma absoluto, por sua vez, só pode ser discutido, se recorrermos a outro dogma infalível: nunca se pode provar o primeiro ponto-de-partida (senão não seria ponto-de-partida).

Este é o be-a-bá do raciocínio lógico. E tem esta vantagem especial de que pode ser ensinado na escola, como qualquer outro be-a-bá. Não dar início a qualquer discussão sem antes declarar abertamente os postulados de cada um, é uma regra a ser ensinada tanto na filosofia, quanto na matemática de Euclides, ou em qualquer aula comum, usando giz e lousa. E penso que esse princípio poderia ser ensinado de forma simples e racional até mesmo ao jovem, antes de aventurar-se pelo mundo, à mercê da “lógica” e da filosofia imposta pela mídia.

Muitas das desorientações e dúvidas no campo religioso, surgem pelo fato de os céticos de hoje começarem sempre, falando sobre tudo aquilo em que eles não acreditam. Mas, mesmo de um cético, o que queremos saber primeiro é em que ele realmente acredita. Antes de começar a discutir, é preciso saber o que é que não se discute. Essa confusão aumenta infinitamente pelo fato de que todos os céticos de nosso tempo são céticos em diferentes graus dessa dissolução que é o ceticismo.

Agora, nós temos (espero), uma vantagem sobre todos esses novos filósofos sabidos: mantemo-nos em sã consciência. Acreditamos que existe, de fato, a catedral de São Paulo; e grande parte de nós acredita em São Paulo. É preciso deixar bem claro que acreditamos em muitas coisas que, embora façam parte de nossa existência, não podem ser demonstradas. Nem é preciso meter religião na história. Diria até que todos os homens de bom senso, acreditam firme e invariavelmente em umas quantas coisas que não foram provadas e que nem sequer podem ser provadas.

De forma resumida, são elas:

(1) todo ser humano em sã consciência acredita que o mundo e as pessoas ao redor dele são reais e não um produto da sua imaginação ou de um sonho. Ninguém começa a incendiar Londres, se está convencido de que seu criado logo o acordará para o café da manhã. Mas não temos provas, em nenhum momento, de que tudo não passa de um sonho. Que algo exista além de mim é uma afirmação que não está comprovada (nem se pode comprovar…).

(2) Todo homem em sã consciência, acredita não somente que este mundo existe, mas também que ele tem importância. Todo homem acredita que há, em nós, um tipo de obrigação de nos interessarmos por esta visão da vida. Não concordaria com alguém que dissesse, “Eu não escolhi esta farsa e ela me aborrece. Fiquei sabendo que uma senhora idosa está sendo assassinada no andar de baixo, mas eu vou é dormir “. O fato de que há um dever de melhorar coisas não feitas por nós é algo que não foi provado e não se pode provar.

(3) Todos os homens em sã consciência acreditam que existe uma certa coisa chamada eu, self ou ego e que é contínua. Não há nenhum centímetro de meu cérebro igual ao que era há dez anos atrás. Mas se eu salvei a vida de um homem numa batalha há dez anos atrás, fico orgulhoso; se me acovardei, sinto-me envergonhado. A existência desse “eu” axial nunca foi comprovada e não pode ser comprovada. Trata-se de uma questão mais do que “improvável” e que é muito debatida entre os metafísicos.

(4) Finalmente, a maioria dos homens em sã consciência acredita, e todos o admitem na prática, que têm um poder de escolha e responsabilidade por suas ações.

Seguramente é possível elaborar algumas afirmações simples como as acima, para que as pessoas possam saber a que se ater. E se os jovens do futuro não vão ter formação em religião, pode-se-lhes ensinar, pelo menos, de forma clara e firme, um pouco de bom senso, três ou quatro certezas do pensamento humano livre.

1. “- Lógica, disse o professor para si mesmo. – Por que não ensinam mais lógica nas escolas” (C.S. Lewis, O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa. São Paulo: Martins Fontes, 1997,p. 50) e, no final da história, o professor comenta novamente, agora em alto e bom tom:

” – Céus! O que é que estão ensinando às crianças na escola?” (Idem, p. 180).

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